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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

SEMANA SANTA




Estamos na Semana Santa. É o tempo de recolhimento em que a Igreja comemora os mistérios sagrados da nossa salvação: a instituição da Eucaristia, a morte redentora de Cristo e a vitória da vida sobre a morte na ressurreição do Senhor Jesus. Por isto se diz que esta semana é santa.

No âmbito da antiga ceia sacrifical hebraica, Cristo insere a novidade da Eucaristia. Os hebreus comiam o cordeiro pascal, de pé, de bordão nas mãos como para partir. Agora neste contexto da antiga ceia, de Páscoa, que se consumou, Cristo institui a Eucaristia, o novo e branco manjar em que nos alimentamos com o Corpo de Cristo. A figura deu lugar à verdade.

Comemora-se também nesta semana a morte redentora do Salvador na sexta-feira, quando o Inocente é sacrificado no suplício da cruz, por sentença de um juiz que cede à pressao dos gritos da multidão, mesmo depois de ter declarado publicamente não haver encontrado no Prisioneiro culpa alguma que merecesse a morte.

A Escritura sacra relata que a própria natureza se assustou com a morte do Salvador. O sol se escondeu para não ser testemunha do crime de martirizar o Inocente, que havia passado três anos distribuindo benefícios aos cegos, aos leprosos e aos paralíticos. Até o soldado romano, que presidia a execução do Condenado, ao ver o grito da natureza no momento da morte de Jesus, pôde exclamar, assustado: “Verdadeiramente este Homem era o Filho de Deus”.

Na madrugada do domingo, o terceiro dia, a vida venceu a morte: Cristo ressuscitou! O sepulcro vazio, os guardas assustados, o sudário e os lençóis ali largados testemunhavam a vitória do que fôra crucificado. A Igreja celebra na liturgia esta vitória por cinquenta dias, cantando os aleluias da ressurreição do Senhor.

Necessário vivermos estes mistérios que nestes dias comemoramos. Não podemos perder o sentido destas santas comemorações. Já se profanou a data sagrada do Natal, em que o Menino Jesus foi substituido pelo Papai Noel, pela ceia e pelo comércio. A Páscoa é rressurreição. É vida nova e vitória sobre o pecado. Por isto cantamos os aleluias de nossa fé em honra dAquele que venceu a morte e nos oferece a vida. Aleluia!

Desejo aos meus leitores uma Feliz e Santa Páscoa!


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O TEMPO PASCAL


 

A celebração cristã da Páscoa situa-nos no acontecer da ação salvadora de Cristo: Deus "passa" por nossa vida. O Espírito irrompe para invadir da luz de Cristo glorificado, que deu a vida por nós na Cruz.

Cristo é a Luz de Deus que chega a nós, nos invade, nos abre a sua filiação divina: faz-nos filhos do Pai. E herdeiros com Ele. A chama acessa do Círio Pascal o recorda. À  invocação "Luz de Cristo!" respondemos alegres: Demos graças a Deus!

O acontecimento Pascal é um presente totalmente gratuito. O Espírito atua para que o dom entre em cada um de nós. Purifica-nos, cura nosso interior para que a Luz seja bem recebida e assimilada, e nos predisponha a irradiá-la ao nosso arredor pela força do depoimento.

A Quaresma tem sido o tempo oportuno, o kairós que nos oferece a Igreja para sinalizar nosso caminho interior para a Páscoa. As leituras bíblicas do tempo quaresmal foram sinalizadoras desta  rota. É o Espírito quem, no meio de nossa escuridão, de nosso gemido, de nossas inseguranças, leva-nos pela mão para uma plena vivência batismal.

Recordemos os textos evangélicos que nos acompanharam durante os domingos da Quaresma:

Primeiro domingo: Jesus, conduzido pelo Espírito ao deserto, enfrenta as tentações. Nós, em nossa fragilidade, nos sentimos próximos a Ele. E, levados de seu mesmo Espírito, no  animamos a seguir seu caminho.

Segundo domingo: A Transfiguração do Senhor convida-nos a nos prepara a grande celebração do Mistério Pascal da Morte e Ressurreição do Senhor.

Terceiro domingo: A reação de Jesus diante dos vendedores e cambistas que comerciavam dentro do templo de Jerusalém, serve para nós como uma exortação para que não façamos das coisas de Deus, cabide para dar suporte aos nossos interesses nem dos lugares santos um trampolim para galgar postos privilegiados.

Quarto domingo: Quando nós nos rendemos às evidências da Salvação de Jesus nós também nos conscientizamos de que temos um Pai de Amor e um Espírito que nos fortalece com este Amor. Somos chamados a amar como Jesus amou, sem julgamentos, sem suposições, sem acusações.  

Quinto domingo: Jesus disse para si mesmo e para seus discípulos. Hoje diz a nós. Que não há possibilidade de vida nova sem passar pela morte. A Páscoa é ressurreição mais também é morte. Não há ressurreição sem morte.

Desde qualquer destes textos nos podemos situar na prespectiva de todo o conjunto quaresmal como o "caminho para a Páscoa", caminho para o Tempo Pascal.

O Tempo Pascal compreende cinquenta dias (em grego = "pentecostes"), vividos e celebrados como um só dia: "os cinquenta dias entre o domingo da Ressurreição até o domingo de Pentecostes devem ser celebrados com alegria e júbilo, como se tratasse de um só e único dia festivo, como um grande domingo" (Normas Universais do Ano Litúrgico, n 22).

As leituras da Palavra de Deus dos oito domingos deste Tempo na Santa Missa estão organizadas com essa intenção. A primeira leitura é sempre dos Atos dos Apóstolos, a história da igreja primitiva, que em meio a suas debilidades, viveu e difundiu a Páscoa do Senhor Jesus. A segunda leitura muda segundo os ciclos: a primeira carta de São Pedro, a primeira carta de São João e o livro do Apocalipse.

Paróquia Coração de Maria

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ABORTO

 

INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ E SEQÜELAS PSICOLÓGICAS


Às vezes, pretende-se justificar o aborto como a única saída para situações angustiantes que uma gravidez não desejada pode trazer. Há inclusive alguns países que admitem a angústia da mulher como indicação para abortar. No entanto, a pior angústia vem depois do aborto. Esta é a conclusão a que chegou a Dra. Mary Simon, psicóloga da Clínica Ginecológica Universitária de Würzburg (Alemanha), em uma pesquisa publicada na conceituada revista DEUTSCHE TAGEPOST (4-VII-92). É interessante constatar que os transtornos psicológicos causados pelo aborto são poucas vezes mencionados na literatura médica especializada. Daí a razão deste artigo que, sem se ater a considerações morais ou éticas e sem chutometrias, visa a mostrar a realidade crua dos fatos. Os dados que são apresentados a seguir, foram todos obtidos de países onde o aborto é legal há mais de trinta anos e realizado nas melhores condições de higiene e assepsia, como é o caso da Inglaterra, da  Checoslováquia, do Japão, da Alemanha e dos Estados Unidos. Além da referência supra citada, remetemos o leitor aos artigos relacionados na bibliografia.

TRANSTORNOS PSÍQUICOS

Basicamente, três tipos de fenômenos psíquicos ocorrem nas mulheres que fazer aborto:

1) Sentimentos de remorso e culpa (60% das mulheres);

2) Oscilações de ânimo e depressões (30 a 40%);

3) Choro imotivado, medos e pesadelos (35%).

Quanto ao sentimento de culpa, já tentaram atribuí-lo a crenças religiosas. Certamente, há sentimentos de culpabilidade originados por convicções religiosas, mas a maior parte destes sentimentos posteriores ao aborto têm muito pouco que ver com a crença religiosa. O aborto viola algo de muito profundo na natureza da mulher. Ela é naturalmente a origem da vida e é normal que a mulher grávida esteja consciente de que cresce uma criança dentro dela. A mulher que aborta voluntariamente, sabe que matou o seu filho. Não é, pois, de admirar o aparecimento de sentimentos de culpa, de autocensura e de estados depressivos. Um psiquiatra sensato disse uma vez que é mais fácil tirar a criança do útero da mãe, do que fazê-la desaparecer do seu pensamento. Inclusive em países de cultura não cristã, como o Japão (onde o aborto livre é legal há 42 anos), há estudos de grande amplitude, mostrando que 73% das mulheres que praticaram o aborto se sentiam "angustiadas" com o que tinham feito. Porém, voltando ao trabalho da Dra. M. Simon, o que mais chama a atenção, não são as seqüelas psíquicas que ocorrem pós-aborto, mas sim os mecanismos que as mulheres desenvolvem para se libertarem dos seus complexos de culpa. Novamente três tipos de mecanismos ocorrem: repressão, projeção e confrontação. Vejamos cada um deles em particular.

REPRESSÃO

A Dra. Simon explica que 61% das mulheres que entrevistou, evitam pensar no aborto e reprimem estes pensamentos, desenvolvendo então sintomas de origem psíquica (psicossomáticos): dores de cabeça, vertigens, tonturas e cólicas abdominais. Este fenômeno também é muito conhecido na medicina como somatização. É um dado significativo: em 70% das mulheres surgem pensamentos de como seriam as coisas se a criança abortada vivesse agora, e 52% delas se incomodam ao verem mulheres grávidas, porque lhes recordam seus próprios filhos abortados.

PROJEÇÃO

Aqui as mulheres projetam para outros a responsabilidade do próprio aborto. Em geral, são mulheres instáveis psiquicamente, mas, sobretudo, dependentes economicamente do pai da criança. Cedem à pressão do marido, do parceiro ou mesmo do ambiente, e abortam.

Posteriormente, quando culpam o marido pelo aborto, aparecem verdadeiras neuroses sexuais: sentimentos de ódio, frigidez e depressões caracterizam a convivência matrimonial-sexual de inúmeros casais que fizeram o aborto. Estatísticas recentes comprovam que, só nos Estados Unidos, 50% dos casais que fizeram aborto se separaram após o mesmo.

Muitas mulheres também acusam os médicos de não as ter informado o suficiente sobre as possíveis conseqüências psíquicas do aborto. Se soubessem, antes de abortar, dos riscos para sua saúde física e psíquica, não o teriam feito. No total, 45% das mulheres voltariam atrás se pudessem, pois consideraram sua anterior decisão de abortar prejudicial e equivocada.

Era freqüente, no questionário formulado pela Dra. Simon, ler respostas do tipo: "atribuo aos que me rodeavam uma grande parte de culpa na minha decisão de abortar" ou "o pai da criança não a queria"; uma das pacientes declarou entre lágrimas: "os médicos decidiram sem contar comigo; assustaram-me, dizendo que a criança poderia nascer malformada. Se eu tivesse outra vez na mesma situação, levaria adiante a gravidez, mesmo que meu filho fosse um débil mental. É carne da minha carne e sangue do meu sangue: eu o amaria".

CONFRONTAÇÃO

O terceiro e menor grupo de mulheres entrevistadas tenta recuperar seu equilíbrio psíquico, enfrentando conscientemente o fato do aborto, e conversam francamente com pessoas de sua confiança (abrem-se com uma amiga, a mãe, um psicólogo ou um médico), porém nunca com o médico que realizou o aborto. Em geral, tentam, primeiro, reconhecer sua culpa; não a reprimem nem a projetam sobre outros, e tampouco procuram justificar-se. Depois, arrependem-se do que fizeram sentindo dor e tristeza pelo filho morto.

CONCLUSÕES

Os fatos comprovam que o aborto não é uma solução para dificuldades psicossociais. Pelo contrário, após o aborto persiste a crise e se acrescenta o risco de novas e mais graves conseqüências psíquicas. Uma mulher que, em geral, reage emocionalmente de forma instável quando submetida a situações estressantes, 
responderá à tensão psicológica do aborto com anomalias psíquicas ainda mais fortes. Por isso, as adolescentes são mais propensas a desenvolverem seqüelas psicológicas após um aborto. A envergadura da ruína psíquica que sobrevém após o aborto, é muito maior do que se pensava antes. Portanto, pergunta-se: aqueles que defendem ou indicam o aborto, têm consciência do que realmente estão causando à mulher? Em todo o mundo, como conseqüência do grande número de abortos que se praticam, está aparecendo um exército de mulheres com graves neuroses pós-aborto.

Os países desenvolvidos começam a repensar suas leis abortistas. Para citar um exemplo, transcrevo a seguir parte de um manifesto assinado por 35 personalidades americanas (o governador da Pensilvânia, Robert Casey; o médico da Universidade de Chicago, Prof. Leon R. Kass e inúmeros políticos e líderes religiosos das mais distintas confissões), publicado na revista FIRST THINGS (New York, november/ 92):

"...Após vinte anos de aborto sem restrições na sociedade americana, constata-se que a mortalidade infantil continua sendo uma das mais altas dos países industrializados; continua a haver cada vez mais casos de maus tratos às crianças (e mais graves); continuam os abortos clandestinos... O aborto livre não satisfez a nenhuma verdadeira necessidade das mulheres, nem lhes devolveu a dignidade. De fato, produziu exatamente o contrário: estimulou a irresponsabilidade dos homens e dos jovens, que encontram no aborto uma escusa fácil para fugir de suas obrigações; aumentou enormemente a exploração das mulheres pela indústria do aborto... A licença para abortar não proporcionou liberdade nem segurança às mulheres..."

Como médico, sinto-me no dever de alertas as mulheres que pensam em abortar (principalmente às adolescentes) e também a todos os colegas que atendem a estas pacientes, lembrando umas palavras da Dra. M. Simon: "O aborto não somente aniquila uma vida humana ainda não nascida, mas também arruina a psiqué da mulher."

Referências bibliográficas

Relatório Wynn.: Margarett and Arthur Wynn. Some consequences of induced Abortion to Children Born Subsequently, Foundation of Education and Research in Child Bearing, London. 1975.

Klinger, A.: Demographic Consequences of the Legalization of Abortion in Eastern Europe. Internacional Journal of Gynecology and Obstetrics, 8: 680. 1970.

Kotasek, A.: Artificial Termination of Pregnancy in Czechoslovakia. Journal of Sex. Research, 7:240. 1971.

Meyerowitz, S.: Satloff, A.; Romano, J.: Induced Abortion for Psychiatric Reasons. American Journal of Psychiatry, 127: 1153. 1971.

Hendricks-Matthews, M.: Psychological Sequelae from Induced Abortion: a Follow-up Sudy of Women Who Seek Post Abortion Counseling.
Doctoral Dissertation. Ann Arbor, Michigan, University Microfims International. 1983.

Roa - A.: El Embrión, lo Humano y lo Humanizado. Revista Médica de Chile, 120: 323. 1992.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

PONHA DEUS EM PRIMEIRO LUGAR EM SUA VIDA!



Pôr Deus em primeiro lugar significa não o confundir com as coisas que são deste mundo, sejam instituições políticas, tendências econômicas ou classes sociais. Na antigüidade, o César romano era imperador e, ao mesmo tempo, divindade. Quando Jesus disse, "Pois dêem ao César o que é do César e a Deus o que é de Deus" (Lc 20,25), estava estabelecendo a separação da instituição política de Deus.

Também não se deve confundir a Deus com as coisas que faz o homem. Curiosamente, em nome de Deus fincaram Jesus numa cruz e o assassinaram, pois os fariseus pensavam que era um mentiroso e estava se fazendo passar por Deus. Pensavam que para defender Deus tinham que matar Jesus. Paradoxalmente, mataram ao Filho de Deus defendendo o nome de seu Pai Deus.

Deus é o Criador de tudo no céu e na terra e é a fonte que dá e provem tudo. Está acima de tudo e de todos, superando o político, econômico e social. Certamente, Deus está presente e vive na Igreja, mas também transcende a Igreja e está em todas partes. Deus sempre está onde exista um ser humano.

Devemos ter muito claro o lugar que deve ocupar Deus em nossas vidas e o respeito que Ele merece por ser a fonte de onde nasce tudo. Respeitar Deus implica amá-lo, honrá-lo, dar-lhe glória e não permitir que nada e nem ninguém ocupe seu lugar. Respeitar ao Criador significa vê-lo em todas partes e, sobretudo, em cada pessoa em cujo ser está Sua divina presença. Quem desrespeita a dignidade da pessoa não pode estar respeitando a Deus. Qualquer ofensa ou dano que se faz a alguma pessoa se lhe faz também a Deus.

Todos os seres humanos são Sua imagem e semelhança. Em todos os batizados está Deus de uma maneira plena. Portanto, cada ser é templo do Espírito Santo de Deus. Ainda nos não batizados existe a presença de Deus. No rico ou no pobre, em qualquer pessoa de qualquer raça está o Senhor e todo o ser humano merece respeito por isto.

Há pessoas que puseram no lugar de Deus seus bens temporários, tais como automóveis, dinheiro, etc. Há também pessoas que, no lugar preferencial de Deus, põem certas pessoas a quem idolatram, seja um artista de cinema, um desportista, um político ou um amante. Isto é um tremenda falta de respeito ao sagrado e divino que é Deus. É terrível, porque Deus sempre deve estar em primeiro lugar e nada nem ninguém pode substituí-lo ou suplantá-lo. Só há um Deus.

Muita pessoas põe preço a sua alma e vendem seu prestígio, fama, honradez e dignidade ao melhor concorrente. Preferem viver sem moral, com dinheiro e fama, que viver com moral e dignamente sem dinheiro, mas tendo sempre a Deus. Essas pessoas que renunciam à presença de Deus e fabricam seus ídolos, convertem-se em idólatras e ofendem a Deus, afastando-se de sua própria salvação.

Os homens devem respeitar também a natureza, que é obra de Deus, já que assim se assegura a futura sobrevivência do homem na terra. Quando o homem destroça o que Deus criou, ofende a vontade divina. Ocorre o mesmo com o respeito ao progresso humano, seja no campo científico, econômico ou nos diferentes campos do saber. Tudo o que implique progresso positivo, só e bom se for desejado por Deus. Por isso, respeitar e cuidar do homem também é respeitar a Deus.

Respeitar o sagrado é pôr sempre Deus em primeiro lugar e não permitir que nada nem ninguém se ponha em Seu lugar. Você coloca Deus em primeiro lugar, ou o deixou de lado por seus deuses baratos ou mundanos? Respeite Deus e o coloque sempre em primeiro lugar.

Fonte: Autores Católicos

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

SEPARADOS, DIVORCIADOS, UMA ESPERANÇA POSSÍVEL



 

O livro de Paul Salaün é uma coletânea de depoimentos de pessoas infelizes em seu casamento, mas fiéis ao mesmo, apesar da separação e do divórcio civil. O próprio autor do livro propõe seu testemunho pessoal e se estende em considerações sobre as razões alegadas (sem consistência) para fundamentar nova união de pessoas divorciadas. Percebe-se, através de suas páginas, o caráter de um cristão fiel, corajoso e humilde, acompanhado de muitos homens e mulheres que compartilham seu modo de ver. A leitura de tais depoimentos, como também de cada página de Paul Salaün, é rica em sugestões e abre ao leitor horizontes ignorados, pois o que mais salta aos olhos de quem acompanha a sociedade de hoje, são sombras e lacunas; é realmente gratificante averiguar que, ao lado delas, existem focos de verdadeiro amor, fiel até a morte, amor, porém, que não faz o alarde que o mal costuma fazer.
Paul Salaün é um fiel católico leigo francês, que fez a experiência de um casamento infeliz, o qual acabou em divórcio civil no ano de 1979, nove anos após contraído; tinha então trinta anos de idade. O sofrimento foi grande, mas Paul encontrou em Deus a força para manter fidelidade ao vínculo sacramental, que o divórcio civil não rompeu. Foi procurar reconforto na Abadia de Timadeuc (Morbihan), onde o pe. Guilherme lhe assistiu valiosamente a ponto de chegarem a fundar com outros divorciados não recasados a "Comunhão Nossa Senhora da Aliança". Após seis anos de existência, esse grupo contava mais de um centena de membros (dos quais um terço de homens) provenientes da França mesma e da Bélgica. O autor relata num livro precioso1 a sua experiência pessoal, assemelhando-a à da Paixão de Cristo (p. 25-69); a seguir, apresenta eloqüentes testemunhos de pessoas que também passaram por experiência conjugal infeliz e guardaram fidelidade ao vínculo sacramental (p. 71-136); por fim, tece considerações, citas outros textos e testemunhos sobre cristãos separados e divorciados que continuam a sua vida de cristãos na Igreja Católica (p. 137-209). Encerra a obra com indicações bibliográficas e orações (p. 211-220).
O livro é precioso. Revela fé, coragem e lealdade não somente do autor, mas de muitas pessoas que por ele falam e que são desconhecidas, pois em nossos dias o que mais salta aos olhos é a dissolução de uniões matrimoniais, às quais outras se sucedem, nem sempre felizes, provocando o drama tanto dos cônjuges como dos filhos do primeiro, do segundo, do terceiro... casamento. É realmente interessante tomar conhecimento de quanto escreve ou transcreve o autor. As ponderações que este faz, analisando os argumentos em prol de sucessivas uniões, evidenciam lucidez de mente, clara escala de valores e intrepidez na vivência da fé católica.
Não sendo possível comentar todos os aspectos positivos dessa obra, deter-nos-emos, nas páginas seguintes, em alguns traços especialmente significativos.

1. Dados numéricos

Com relação à França, o autor afirma que em vinte e cinco anos o número de divórcios se triplicou, passando de 35 mil em 1965 a cerca de 110 mil... O problema é cada vez mais amplo, afetando numerosos cristãos; cf. p. 177. A pressão social em favor de novo casamento dos separados é muito forte, dificultando a fidelidade não somente na sociedade civil, mas também no interior da Igreja. Aos 22/04/1987, o jornal La Croix publicou os resultados de uma sondagem segundo a qual 69% dos católicos desejavam que a Igreja autorizasse os divorciados a se casar de novo sacramentalmente, se o desejassem; só 22% não queriam que mudasse sua posição.

O autor refere-se também a um questionário que perguntava a separados ou divorciados se tinham sido aconselhados a se casar de novo. Vinte dentre eles (um terço) responderam que sim, nove vezes por um padre, onze vezes por outras pessoas. É da família que, antes do mais, parte o convite; dizia alguém:

"Foram membros da minha família ou da de meu sogro que me falaram em novo casamento, sem dúvida, para se desculpabilizar e para que eu me casasse e os deixasse tranqüilos" (p. 191).

Também os filhos fazem a mesma proposta: "Minha filha mais velha me aconselhou a assumir alguém" (p. 191).

Os amigos "bem intencionados" diziam o mesmo: "Algumas amigas me estimularam a refazer a minha vida, dizendo-me: 'Não é culpa tua, se estás só; foi ele que te deixou cair'"(p. 192).

Em idêntico sentido falam pessoas que projetam seus próprios problemas: pessoas solitárias, divorciadas, pessoas que têm familiares recasados. Prescindem da fé e valem-se de argumentos meramente humanos.

A esta altura é de notar que à Igreja não é lícito modificar os escritos do Novo Testamento, que são peremptórios ao afirmar a indissolubilidade do casamento; cf. Mc 10,11s; Lc 16,18; 1Cor 7,10s; Mt 5,31s; 19,9.1 Por isto também não compete aos padres aconselhar novas núpcias aos cônjuges separados; nem mesmo a compaixão bem intencionada pode prevalecer sobre a disposição da lei de Deus. De resto, o autor refere outrossim a atitude de padres que estimulam a fidelidade matrimonial; apoiam-na também os grupos de Oração, os Focolares, Religiosas, casais cristãos.

Paul Salaün analisa alguns dos argumentos aduzidos em prol do recasamento:

2. O problema da solidão

A solidão como tal é penosa para muitos divorciados. O problema se torna mais grave quando acompanhado de poucos recursos materiais, dificuldades para conseguir emprego, fadiga do trabalho fora de casa e em casa, ausência de parceiro (a) para educar os filhos ("eles precisam de presença masculina/feminina"). Há psicólogos que recomendam novo casamento como necessário para o desabrochamento sexual da pessoa.

O problema se torna ainda mais pungente quando a separação ocorre em idade ainda jovem: "Tu és jovem (27 anos), podes refazer tua vida"; "Tu és jovem, acaba com tua solidão, casando-te de novo"; "Pensa em teus dias de velhice"; "Tu não podes envelhecer na solidão" (p. 113).

Responde Paul Salaün:

"Os que dão mais conselhos projetam sua própria angústia e têm tendência de confundir solidão e isolamento. Está-se só em nossas cidades superpovoadas, mas o eremita em seu deserto não está só, porque está em comunhão com Deus e, misticamente, com toda a humanidade. De fato, tudo está na maneira de viver a solidão: 'Pessoalmente, não acho que seja difícil viver só. Sinto-me agora mais feliz, mais equilibrada, mais bem acompanhada, mais bem abastecida na vida de oração e na Eucaristia freqüente. Faço catequese e distribuo a Comunhão aos membros da Fraternidade dos doentes'.

Acontece mesmo que a situação se inverte: 'Com muita gentileza, alguns amigos temiam que a solidão para mim fosse muito difícil de ser vivida. Doravante o problema se inverteu: acontece-me refletir com casais para ajudá-los a acabar com... a solidão!'"(p. 193s.).

3. O direito à felicidade

O segundo grande argumento apresentado para justificar o recasamento é o do direito à felicidade: "Um padre me disse que Deus quer a felicidade dos homens e que Ele não pode aceitar tal sofrimento. Ele me aconselhou a casar-me de novo e foi por isto que o fiz. Mas foi um novo fracasso" (p. 194).

O autor nota que "o nosso mundo fez da vida sexual uma condição sine qua non da felicidade; é uma forma de idolatria" (p. 196).

"Nosso mundo diz: 'Felizes os que têm vida sexual bem sucedida'". Hoje muitos imaginam que, para ser feliz, basta trocar o Evangelho pelas obras de Freud ou de seus discípulos, os livros de moralistas pelos dos sexólogos... Mas, se as pessoas são liberadas em relação à sexualidade, nem por isto são felizes, e o número impressionante dos divorciados aí está para confirmar" (p. 9s.).

Paul Salaün nota que a felicidade verdadeira está, antes do mais, em manter fidelidade a Deus. Este não se subtrai jamais a quem o procura; promete até "a bem-aventurança aos que têm um coração puro, porque verão a Deus" (Mt 5,8). Há testemunhos muito eloqüentes neste sentido: "Quando me encontram serena, surpreendem-se por ver que vivo sozinha há dezesseis anos e que jamais tive amante, meu amor é o Cristo Ressuscitado" (p. 197).

Há quem alegue o direito ao erro e a obrigação de cada um ser fiel a si mesmo. São duas alegações ambíguas.

Está claro que todo ser humano é falível e está sujeito a errar, mas isto não quer dizer que tenha sempre o direito de recomeçar. Quando, por exemplo, alguém em juventude estraga a sua saúde, com ou sem culpa própria, não tem como recomeçar a ser jovem e sadio. — A fidelidade de alguém a si mesmo geralmente é entendida em sentido subjetivo e egocêntrico — o que não acarreta felicidade a ninguém. Com efeito; ninguém é suficiente referencial para si mesmo. Todo ser humano é pequeno demais para as capacidades do coração humano, de modo que, se alguém faz de seus interesses o critério de seu comportamento, cedo ou tarde experimentará tédio e dolorosa frustração.

O Santo Padre João Paulo II, em York (Grã-Bretanha), aos 31/05/1982, assim se expressou a propósito:

"O próprio Cristo, fonte viva de graça e de misericórdia, está perto daqueles cujo casamento conheceu a provação, o sofrimento, a angústia. No decurso dos séculos, inúmeros esposos hauriram no mistério pascal da Cruz do Cristo e de sua Ressurreição a força de dar como cristãos — às vezes em momentos muitos difíceis — o testemunho da indissolubilidade do casamento cristão. E todos esses esforços do povo cristão para testemunhar fielmente a lei de Deus não foram em vão. Esses esforços são a resposta humana dada com o auxílio da graça a um Deus que nos amou primeiro e que se deu por nós.

Como já expliquei em minha Exortação Apostólica Familiaris consortio, a Igreja sente-se envolvida de maneira vital pelo cuidado pastoral da família nos casos difíceis. Devemos inclinar-nos com amor — o amor do Cristo — sobre os que conhecem o sofrimento do fracasso no casamento, sobre os que conhecem a solidão quando é preciso educar sozinho uma família, sobre aqueles cuja vida familiar é dominada pela tragédia ou pelas doenças do espírito ou do corpo. Louvo todos os que ajudam as pessoas feridas pelo fracasso de seu casamento, mostrando-lhes a compaixão do Cristo e aconselhando-os segundo a verdade" (p. 150).

4. A severidade da Igreja

Eis alguns títulos de acusação feita à Igreja:

1) A Igreja é tida como "desumana", intransigente, retrógrada. "A fidelidade está ultrapassada; estamos no século XX" (p. 197). Ao contrário, Deus seria todo misericórdia e perdão.

Em resposta, lembra Paul Salaün que hoje há quem atribua a Deus uma misericórdia que desdenha as leis que ele mesmo estabeleceu. Jesus nunca separou Amor e Verdade; não condenou a mulher adúltera, mas nem por isto aprovou o adultério, pois lhe disse: "vai e não peques mais" (Jo 8,1-11). De resto, a Igreja tem manifestado especial solicitude para com os divorciados e recasados.

Refere o autor o seguinte episódio: "Um homem, tendo ficado só com os filhos novos depois da saída de sua esposa, vivia em coabitação com uma mulher, mas sentia uma culpabilidade que não podia evitar. Esperava do padre uma atitude firme; ora, seu pároco, achando a Igreja severa demais, aprovava sua coabitação e o escusava, 'já que tinha sido abandonado por sua esposa, que partiu com um outro'. Mas este homem não estava convencido por este falso argumento: 'Para mim, em toda ruptura de casal, os dois cônjuges têm sua parte de responsabilidade'" (p. 198s.).

2) Há também quem acuse a Igreja de ser mais intransigente do que os cristãos ortodoxos e protestantes.

Pode-se reconhecer a veracidade de tal alegação. Mas observa Salaün que os "irmãos ortodoxos ou protestantes ficam muitas vezes irritados com reflexões simplistas dos que os interpelam sobre este assunto: eles mantêm a fidelidade em alta estima e não aceitam o recasamento senão como uma concessão à fraqueza humana. Além disso, entre os ortodoxos, o ritual das segundas núpcias traz orações de penitência" (p. 199).

3) Também acusam a Igreja de fazer discriminação, pois aceita o casamento religioso dos padres reduzidos ao estado laical.

Em resposta, é de notar que o sacramento da Ordem não é, por si, incompatível com o do Matrimônio; no Oriente o clero católico é casado (casa-se antes de receber o sacerdócio, não depois). Ao contrário, o sacramento do Matrimônio é, por sua própria índole, indissolúvel. A Igreja pode reconhecer a nulidade de um casamento, desde que se evidencie que foi contraído com algum impedimento dirimente (disparidade de culto, profissão religiosa, dolo...); mas nunca anula um casamento validamente contraído e consumado, pois isto escaparia à sua jurisdição.

"Os cristãos que escolhem a fidelidade são mais numerosos do que se crê, e, como sublinha João Paulo II, seu testemunho tem um valor profético. Sua atitude de perdão interpela seu círculo de relações. 'Não se compreende que eu não tenha rancor de meu marido nem de sua amante por suas ofensas à minha pessoa. Muitos gostariam que eu tivesse uma atitude mais violenta'. Seu testemunho de fidelidade atualiza a missão de Oséias e, se alguns não a compreendem, ao menos a respeitam" (p. 201).

"Os separados e divorciados não recasados não só tem o direito de comungar, mas podem ainda exercer todas as funções abertas aos leigos: animação, leitura, distribuição da comunhão, coral.

Como todos os batizados, eles podem também participar na manutenção da igreja e nos serviços, visitar os doentes, fazer a catequese, peregrinações, ser membros de equipes de ação católica e de grupos de oração...

Bem mais, no seio da comunidade, dão 'um autêntico testemunho de fidelidade' (João Paulo II, Familiaris consortio, 20,6) e muitos foram convidados a manifestar publicamente ou a professar este testemunho: diante dos jovens que se preparam para a Crisma; num encontro de A. C. O. (Ação Católica Operária); por ocasião de uma reunião de casais; num fim de semana diocesano das Equipes de Nossa Senhora; numa assembléia diocesana de oração pelas famílias; em reuniões da Renovação; num lar de Caridade; diante de um grupo de padres..." (p. 186).

5. O drama dos filhos

"Hoje, 1,5 milhão de crianças vivem divididas entre seu pai e sua mãe.

Quando seus pais separados se encontram e discutem diante dele, um menino se interpõe e diz: 'Parem de brigar, vocês dois!'

Crianças, morando em Brest, não vêem senão cada dois anos seu pai que mora em Toulon.

Três adolescentes, cujos pais estão separados há sete anos, jamais reviram seu pai, que mora muito perto, mas não se interessa por eles.

Um rapaz explode em soluços diante de um lar unido, porque o marido tem o mesmo nome e exerce o mesmo ofício que seu pai.

Uma adolescente diz a seus pais: 'Sou vossa filha e vós me cortastes em duas; mas não escutais meus gritos'.

'Muitas crianças apresentam distúrbios de comportamento: enurese, distúrbios intestinais, insônia, retardamento escolar e até cleptomania para compensar seu sentimento de abandono' (uma juíza).

'Os filhos de divorciados têm muita dificuldade de se imaginar mais tarde como um casal feliz' (uma psicanalista).

'Muitas crianças cujos pais são separados, vivem um episódio depressivo nos anos que seguem' (uma psicóloga).

O divórcio não é acolhido como um alívio senão quando põe fim a uma situação anterior intolerável (alcoolismo, violência...).

Para ajudar o filho, a atitude dos pais é essencial. Ora, eles mesmo estão extremamente perturbados ou ausentes... Duas atitudes negativas os espreitam: ou o abandono, que é mais freqüentemente o caso dos pais; ou uma atitude possessiva, que mais comumente é o caso das mães. Algumas, com efeito, levantam seus filhos contra o pai, exigem que escolham entre ele e elas e às vezes reconstituem uma espécie de casal com um filho ou de casulo com os filhos, onde o pai não tem lugar.

É preciso que o filho possa ver regularmente cada um dos pais, fora do clima de tensão; e que receba de cada um deles a afeição de que tem sede. Efetivamente, o maior temor do filho quando da ruptura do casal é de se sentir abandonado por seus pais e às vezes ele até se sente culpado por esta ruptura; então, tem necessidade de ser tranqüilizado!" (p. 21s).

6. Dois Depoimentos eloqüentes

Pôr último, extraímos do livro de Paul Salaün dois depoimentos altamente expressivos de dor, coragem e vitória dos valores cristãos.

6.1. "Preferi a eucaristia ao recasamento

Encontrei-me só aos trinta e um anos, com dois filhos para cuidar (oito e nove anos). Sem ajuda financeira, porque separada de fato, com meu marido quase sempre sem trabalho ou tendo poucos rendimentos. Nada de resposta aos meus cartões de festas, aos convites da escola etc. Era duro. Uma ou duas vezes por ano, uma visita de um ou dois dias e era tudo. Recebíamos meu marido do melhor modo, os filhos tendo aceitado (a contragosto) este pai que vivia longe deles. Contudo, eles o tratavam com carinho, tendo aprendido, com a graça de Deus, a amar sem julgar.

Assim se foram os anos, com o desejo de guardar fielmente a imagem da felicidade fugida. Mas, a separação de corpos tendo vindo depressa, veio também a tomada de consciência mais profunda de um não-retorno. Neste momento, porque eu era mais vulnerável, ou talvez porque o amor tivesse desaparecido, eis que um outro homem entrou em minha vida. Foi rápido, inesperado, desconcertante.

Ele me propunha o casamento, o conforto, a ternura. Era um homem decidido, que contrariamente a meu marido, tinha fé, podia partilhar comigo uma dimensão espiritual. Era aberto e aceitava meus filhos. Ele mesmo era divorciado, mas não se colocava nenhum problema quanto à sua prática religiosa.

Eu me pus a amá-lo (não era senão paixão, soube-o mais tarde); mas como, na esperança reencontrada (eu diria agora: no sonho), analisar seus próprios sentimentos? Não coabitávamos, pois este homem vivia ainda por alguns meses no estrangeiro; mas nos escrevíamos de dois em dois dias, às vezes todos os dias. Minhas cartas eram totalmente cheias de alegria e de esperança ou cheias de dúvida, de tristeza, de desejo de abandonar este projeto de vida futura. Ele compreendia que eu estava muito indecisa, dava-me mil razões para acalmar minha consciência, escrevendo-me às vezes duas cartas por dia.

Por que eu não era feliz? Por causa de minha fé! A fidelidade ao sacramento do casamento tinha alimentado minha vida durante tanto tempo que renunciar a ela era para mim uma dilaceração. Porém, outras vezes, me parecia uma dilaceração mais profunda ainda abandonar esse novo amor. Eu estava tão perturbada que meus filhos, percebendo-o, me pediam que resolvesse a questão de uma vez por todas: 'Se amas e pensas ser feliz, então não penses mais no passado, mamãe'; ou 'Se tens medo de ser infeliz, então é preciso romper, mas não esperes mais, mamãe, porque estás te destruindo'. Caros filhos, como os amava! Eu tinha-lhes ensinado a amar seu pai sem o julgar, como eu os amava por sua delicadeza e sua abnegação!

Então escrevi a amigos, a todos os meus amigos padres, a Roma, de onde recebi uma resposta por intermédio do bispado e de meu pároco. Nenhuma resposta definitiva: remetiam-me à minha consciência e isso era bem mais terrível. À minha consciência, isto é, à minha verdadeira relação com o Senhor.

Então tomei uma decisão. Eu conhecia a posição da Igreja diante do casamento; sabia que não se pode ir comungar em sua própria paróquia sem dar um mau testemunho; e eu não queria causar um mal à Igreja da qual era uma filha querida, sobretudo durante meu sofrimento nesse período.

E o que sabia, sobretudo, é que me era impossível viver sem Jesus. Para mim Jesus não estava nas nuvens nem era alguém que eu aceitava como amigo, com a condição de que não me incomodasse demais. Oh! não; para mim Jesus era 'o Vivente' presente junto de mim; eu tinha necessidade do alimento que ele me dava em seu Corpo e Sangue, tinha necessidade desse alimento ao mesmo tempo espiritual e concreto. E de repente compreendi que era esse Corpo Sagrado que era minha vida, meu essencial. Só ele podia fazer inclinar a balança da decisão que eu tinha de tomar.

Certamente, não foi fácil; rezei a Deus, chamei-o em socorro de todas as minhas forças. Eu sabia que, se me casasse de novo, não poderia mais comungar. Então, para saber se poderia viver sem receber a Eucaristia, vários domingos em seguida tentei assistir à Missa sem comungar; aplicava-me a rezar mais, a comungar espiritualmente... Foi preciso que me rendesse à evidência: não poderia, todo o resto de minha vida, suportar os sofrimentos da separação sem meu Jesus na Eucaristia. Ir comungar às escondidas em uma outra paróquia... de que me serviria? Meu coração não estaria em paz. Meu amor era Jesus-Hóstia e, esse amor, eu queria poder vivê-lo às claras.

Então tomei minha decisão; escrevi minha carta de ruptura. O homem não ficou, apesar de tudo, por demais decepcionado: tinha aprendido a me conhecer e, já havia muito tempo, duvidava um pouco de minha escolha, embora guardando um tanto de esperança.

Essa renúncia não foi tão fácil como talvez pareça nestas linhas. Mas quantas graças me foram dadas após essa renúncia! É-me impossível narrá-las todas para vós. Dizer-vos a alegria de meu marido, também não posso dizer.

Mas o que posso dizer-vos é que não a lamentei jamais. E dou graças ao Senhor pela ternura profunda que nasceu entre mim e meu marido, para nossos encontros, para nossos telefonemas, para nossa confiança mútua. Ele nos admira, meus filhos, meus netos e a mim mesma, mas ele, não obstante seu re-casamento, não é muito feliz; é possível? Rezo sobretudo para que meu marido tenha um dia a alegria de conhecer o Senhor.

Em todo o caso, a Eucaristia é verdadeiramente 'o caminho, a verdade e a vida'.

Wanda" (p. 117 - 119)

6.2. "Encontrei o amor verdadeiro

Penso que no fim de dezessete anos de separação de Cláudio, depois de altos e baixos, é-me necessário precisar a situação para que, através destes anos que Deus me deu, eu possa louvá-lo e agradecer-lhe todos os benefícios de que me cumulou.

Tudo remonta, penso, a agosto de 1954, quando, após um acidente, nosso pequeno Bernardo, segundo filho, voltou para seu Criador. Esperando Maria Paula, eu me agarrei física e moralmente a Cláudio, como uma tábua de salvação. Oito meses de cama, uma criança doente treze meses, o nascimento de uma outra criança doente: tive de cuidar deles durante muitos anos. Custei muito a me recuperar do desaparecimento de Bernardo, apegando-me a Cláudio, mas apesar de tudo rezava sempre, ou melhor, exercitava-me.

Vivemos nossa vida de casal no meio de múltiplas dificuldades de filhos e de trabalho: Cláudio estava terminando seus estudos, depois veio o serviço militar, depois mais estudos, depois dois anos como médico, três anos em duas residências médicas, depois uma doença que o obrigou a mudar de profissão, depois mais estudos em diversos lugares. Depois do diploma, um emprego de três anos, depois outro.

Tudo isso nos leva a maio de 1968!

Eu havia aceitado essas mudanças por amor a Cláudio, como o sentimento de que era a vontade de Deus para nós.

Não me haviam dito: 'Deus não pede mais do que podemos suportar; é uma graça do Senhor que nos prova assim seu Amor por nós; é preciso ganhar o seu Céu sobre a Terra' etc.

Estávamos verdadeiramente cheios de graças!

Mas, infelizmente, as confusões de maio de 68 iam fazer soar o golpe de graça de nosso casamento com a chegada em nossa casa de uma prima em dificuldades, com três filhos de quatro anos a dezoito meses; espancada por seu marido, ela havia fugido de seu lar e nós podíamos arranjar-lhe trabalho, comida e teto, e eu podia ocupar-me com seus filhos. Essa prima, pouco tempo depois, encontrou Cláudio para consolá-la...

Penso agora (sem por isso o aprovar) que ela fez Cláudio despertar de um longo sono, ou que ele saiu de nossa relação como um cão sai da água bufando. Tinha eu um amor demasiado manipulador? fechando nosso casamento sobre si mesmo e sobre os filhos? com problemas de saúde e de trabalho? na rotina de uma vida monótona? Diante desta ruína, na qual meu amor e minha boa vontade tinham também sua responsabilidade, fiz três tentativas de suicídio, crendo que meu desaparecimento, devolvendo a Cláudio sua liberdade, lhe permitiria ocupar-se enfim com os meninos. Infelizmente, extasiado com suas novas descobertas, ele nos abandonou.

Eu estava ao mesmo tempo no fundo do poço e no início de minha luta pela vida e por eles: 'Pegar o touro pelos chifres ou morrer, não há outra solução'.

Legalmente, pedi apenas a separação de corpos em 1972, e continua sempre assim. Luto com mais baixos do que altos, mais desespero que alegria; mas, graças ao Padre Pascal, pude começar a transformar meu amor, perdoando o melhor possível a Cláudio, decidindo ficar-lhe fiel e tentando cumprir sozinha o que tinha prometido diante de Deus ao me casar 'para o melhor e para o pior'. Eu estava com Jesus no Jardim das Oliveiras, meditação que foi a minha durante muitos anos em que, única oração com a Eucaristia, eu oferecia ao Senhor minha impossibilidade de amar meu esposo, meus filhos, e de rezar por eles. Eu era '5' sozinha.

Por ocasião de um retiro, encontrei meu antigo assistente da ENS (Equipes de Nossa Senhora); depois que lhe contei o que eu tentava viver e disse que não tinha encontrado na ACGF e na "Renascença" (Ação Católica geral feminina e "renascença": Movimento cristão de mulheres separadas, divorciadas) as exigências espirituais de que tinha necessidade, ele me aconselhou a tentar entrar de novo numa equipe de Nossa Senhora. Obediente, passei uma tarde na casa de um casal responsável pelas equipes.

Conhecia Ana Maria desde 1981, na "Renascença", já à procura do que seria mais tarde a "Comunhão Nossa Senhora da Aliança".

Primeiramente encontrei minha unidade no Senhor. 'O Senhor te escolheu, ele te chamou por teu nome, ele te fez caminhar em seus caminhos'. 'Com a menor das sementes o Senhor faz brotar a mais bela das árvores'. 'Se tivesses a Fé, grande como uma semente de mostarda, deslocarias as montanhas'. 'Se o grão não morrer...' (Retiro de Délémont na Suíça, pregado para divorciadas; éramos 15).

Em seguida, encontrei a liberdade dos filhos de Deus. Os meus, que tanto amo, tinham acabado de me sufocar.

No nascimento da 'Comunhão Nossa Senhora da Aliança', quando Ana Maria me propôs fazer parte, pulei de alegria porque tinha enfim encontrado o que procurava havia muito tempo: um lugar de reabastecimento espiritual e de trocas com meus semelhantes, irmãos e irmãs na separação e no divórcio.

Graças à oração e a numerosos pequenos sinais, reencontrei o Amor verdadeiro, Amor humano e divino, mesmo com um passo atrás, dois à frente!

Estou numa Paz profunda e agradeço todos os dias ao Senhor num Magnificat, imperfeito certamente, mas sincero.

Que seria de mim se não tivesse tido este sofrimento? Não sou eu que o posso dizer. Mas penso, malgrado tudo, que por meio dele reencontrei um sentido para o Amor, uma liberdade total, um sentido profundo de minha vocação de esposa diante de Deus, de mãe e agora de avó, numa alegria que não tinha experimentado antes e que vivo agora plenamente.

Desejo a todos e a todas que reencontrem, gastando menos tempo que eu, este Amor, esta Paz, esta unidade, esta liberdade que Deus nos dá, mesmo e sobretudo nas situações mais penosas ou difíceis.

Maria Paula" (p. 83-85)

A leitura de tais depoimentos, como também de cada página do livro de P. Salaün, é rica em sugestões e abre ao leitor horizontes ignorados, pois o que mais salta aos olhos de quem acompanha a sociedade de hoje são sombras e lacunas; é realmente gratificante averiguar que, ao lado delas, existem focos de verdadeiro amor, fiel até a morte, amor, porém, que não faz o alarde que o mal costuma fazer.

Paul  Salaün