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domingo, 27 de fevereiro de 2011

REFLEXÃO SOBRE A QUARESMA

A Quaresma e o deserto


A Quaresma traz-nos aos olhos a velha imagem do deserto. Gerações de cristãos, seguindo o Povo de Deus e acompanhando a Cristo, têm sentido seu chamado em seu caminho de busca de Deus até convertê-lo em elemento básico de sabedoria cristã.

Lugar para o encontro com Deus

O deserto é um dos conceitos bíblicos de significado mais profundo. Pertence à sabedoria básica do homem espiritual. Fez-se caminho obrigatório para o povo de Deus até a terra prometida e lugar do encontro com Deus. Moisés, Elias, João o Batista e mesmo Jesus, foram homens do deserto. O deserto é esse espaço hostil, que obriga à luta tanto como à confiança, e se converte em pedagogia de Deus para avançar, intensificar o olhar vigilante e interiorizar a fé, a fim de reconhecer a presença de Deus e denunciar toda a idolatria.

Espaço de misericórdia

Na mentalidade do povo de Deus, o deserto era o âmbito reservado aos malditos e aos deserdados. No entanto, em seu passo errante e obrigado por ele, é onde experimentará as maiores manifestações de amor por parte de Deus. Ali é onde Deus estabeleceu sua Aliança com seu povo e onde este a porá a prova uma e outra vez até que fique sobradamente confirmada. A misericórdia de Deus brilhará deslumbrante sobre a ingratidão do povo. E o deserto será testemunha privilegiada dessa ação salvífica, misericordiosa, de Deus. Aos prodígios iniciais da libertação e da aliança vai-se somando a superação das provas e das tentações, através das quais o povo experimenta como o amor de Deus se expressa em termos íntimos de noivado e de casamento místico: "Eis o que diz o Senhor: foi concedida graça no deserto ao povo que o gládio poupara. Dentro em pouco Israel gozará de repouso. De longe me aparecia o Senhor: amo-te com eterno amor, e por isso a ti estendi o meu favor'' (Jeremias 31, 2-3). Os profetas recordarão ao povo aquela experiência como um momento de meditação: "Devastarei sua vinha e sua figueira, das quais dizia: Eis a paga que me deram meus amantes. Farei delas um matagal, que os animais selvagens devorarão" (Oseías, 2, 14). João o Batista é o homem do deserto por excelência; corpo endurecido, voz que clama à conversão: sua existência faz-se caminho para o Senhor. Jesus, após o batismo, viverá no deserto uma experiência de prova que lhe levará à plena aceitação de sua própria identidade e da missão encomendada. A mesma Igreja terá sua experiência de deserto. Aparece no Apocalipse. A mulher-igreja é levada ao deserto, lugar que Deus lhe preparou como refúgio, purificação, prova e superação da perseguição: toda uma experiência de salvação que a igreja tem de viver com fidelidade.

Florescerá o deserto

Na história da espiritualidade, o deserto tem protagonizado diferentes, e inclusive contrapostas, experiências. A destacar, a dos essênios, comunidade judia de ascetas, que viveram junto ao mar Morto no século II antes de Cristo. O historiador Plínio deixou testemunho de seu estilo de vida. Os escritos que nos deixaram em Qumrán têm servido para melhorar nosso entendimento da Bíblia. Ascese (palavra grega que significa simplesmente exercício. Religiosamente, comporta esforços, renúncias e penitências em vista da perfeição) e solidão buscaram muitos cristãos no deserto, que, a partir do século II e IV, fugindo do mundo, sonhavam com a profecia de Isaías: "Os infelizes que buscam água e não a encontram e cuja língua está ressequida pela sede, eu, o Senhor, os atenderei, eu, o Deus de Israel, não os abandonarei. Sobre os planaltos desnudos, farei correr água, e brotar fontes no fundo dos vales. Transformarei o deserto em lagos, e a terra árida em fontes. Plantarei no deserto cedros e acácias, murtas e oliveiras; farei crescer nas estepes o cipreste, ao lado do olmo e do buxo,  a fim de que saibam à evidência, e pela observação compreendam, que foi a mão do Senhor que fez essas coisas, e o Santo de Israel quem as realizou." (Is 41,17-20). Pouco a pouco, esta experiência se encherá de um novo sentido, quando muitos começaram a buscar na solidão um lugar para a intimidade com Deus. São Bernardo convidava a isso: "O que deseje ouvir a voz de Deus que se retire para a solidão. Esta voz não se deixa ouvir nas praças". E São Bruno: "que delícia oferece a solidão e o silêncio do ermitão... Aqui, o olho adquire essa olhar singelo que fere de amor ao Esposo!"

Nossos desertos

Para a sabedoria cristã, o deserto converteu-se em símbolo e paradigma, A cada qual tem ante si um deserto para cruzar, que pode adotar muitas formas. A sabedoria estará em cruzá-lo, superando as tentações e ameaças. Surge, por exemplo, ante a experiência de envelhecer, de cair doente, de padecer das conseqüências de um acidente. Cruzar este tipo de deserto faz-se longo e penoso: esquecemos a clareza do céu; a fadiga e a dor exercem um pesado obstáculo. Aceitar esse fato, no entanto, pode acordar em nós um oásis. Outras vezes, é o deserto da falta de amor, a solidão: a distância que nos separa de outros seres humanos que nos torna enfraquecidos. Ainda que estejam pertos, falta comunhão; há uma ruptura dura e dolorosa. Os outros pensam, vivem e amam "de outra forma". Tudo isso, em sentido positivo, pode dar lugar ao oportuno desapego do outro, a renunciar ao possuir, e que nessa renúncia nos dê a alegria de "ser como ele". Há quem, no crepúsculo das idéias e dos sonhos, chegam a experimentar uma espécie de ausência de Deus, o sem sentido de muitas coisas, a aridez da fé, que alguém chamaria de "Noite escura". Parece que Deus se retira e se oculta, que nos abandona. Porém não é assim. O que nos abandona são nossas ilusões e fantasias; a fé não se perde, pelo contrário se começa a aprofundar nela quando perdemos nossas "crenças".

Resumindo

Resumindo os traços característicos de sabedoria espiritual do deserto, diríamos:

Somos chamados a buscar um marco de silencio e solidão para percorrer nosso caminho interior.
Devemos viver o sentido da passagem, de purificação e de provisionalidade.
Devemos ter confiança para caminhar às cegas e na austeridade, sempre abertos a solidariedade.
Devemos mudar o coração para, em liberdade, sermos capazes de oferecer a vida.

Padre Anastasio Canto
Missionário claretiano, diretor da revista IRIS DA PAZ,
falecido em Madri em 04 de março de 2009, aos 74 anos de idade,
como conseqüência de um câncer contra o  qual lutou durante alguns anos.
Que o Deus da Vida em quem sempre creu como seu salvador
o conduza à morada de luz e de vida.

 

 

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